Pesquisa traz números e relatos de suicídios de policiais

Perito Técnico da Policial Civil no Estado da Bahia, Eliel cometeu suicídio dentro da casa da namorada no dia 09 de janeiro de 2016, num condomínio de classe média de Salvador, no bairro do Rio Vermelho. Descrito pelos amigos como extrovertido, Eliel enfrentava uma serie de mudanças em sua vida. O litígio com sua ex esposa e aumento da jornada de trabalho traziam uma carga que parecia suportável, mas Eliel Carvalho diante de sua dor e numa atitude inconsequente tirou a própria vida. “Ele era um pai tão dedicado que chegou a fazer curso fora para ajudar no desenvolvimento do filho autista”, fala o seu amigo, também policial, Adriano Marinho. A inda segundo Marinho, Eliel enfrentava uma seria de problemas no litigio com a ex mulher e profissional. “Nos últimos dias Eliel Dormia praticamente o dia todo no plantão. Ele também se queixava de problemas de alienação parental. Acredito que foram esses o conjunto de fatores que levaram ele a fazer o que fez”, conclui Adriano Marinho.

Outro crime que chocou a comunidade policial foi o homicídio seguido de suicídio do casal policial Ladeia, que ocorreu na cidade de Barreiras. Orlando Ladeia, Perito Técnico de Policia Civil enviou uma mensagem de áudio para um grupo de whatsapp, momentos antes do ocorrido, dizendo que iria cometer o crime. Na mensagem, Orlando Ladeia, de 41 anos, avisou que era para a polícia se dirigir à residência deles, deu o endereço e explicou onde ficava a chave e o controle do portão. Quando a Polícia Militar chegou ao local, Orlando Ladeia e a esposa, Dirce Ladeia, de 35 anos que era Bombeiro Militar, já estavam mortos. Segundo informações de amigos, eles estavam em processo de separação, mas ainda viviam na mesma casa. Orlando era descrito pelos colegas como uma pessoa reservada e competente.

Esses crimes citados parecem ser algo atípico, mas tem uma correlação preocupante dentro do universo policial. Tanto que um grupo de psicólogos da Polícia Militar do Rio de Janeiro e pesquisadores do Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção da Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ lançou o livro “Por que os policiais se matam”, um dos mais completos estudos sobre a problemática do suicídio entre policiais, sob a coordenação da cientista política Dayse Miranda. A pesquisa foi motivada pela percepção de que algumas profissões, como a de policial, têm fatores de estresse maiores do que os da população em geral, o que leva a problemas emocionais e incidência de suicídio mais elevados. No caso dos policiais, o ambiente de trabalho inclui rotina de agressões verbais, abuso de autoridade e humilhações dos superiores, escala de trabalho exaustiva, risco constante de ser ferido ou morto em uma operação, treinamento e equipamentos aquém do necessário, falta de reconhecimento pela sociedade, baixos salários etc.

Foto do Livro – “Por que os policiais se matam?”.

 

Alguns resultados da pesquisa do GEPeSP revelam que: de 224 policiais militares entrevistados, 10% disseram ter tentado suicídio e 22% afirmaram ter pensado em suicídio em algum momento. Em contrapartida, 68% disseram nunca ter tentado nem pensado em se matar. Conforme pode ser observado no gráfico abaixo:

Esses números foram obtidos através de uma pesquisa feita no Rio de Janeiro, mas os números aqui na Bahia também assustam. Segundo o Presidente do SINDPEP, Alberto Durão, existem queixas de vários colegas desmotivados pelo regime excessivo de trabalho e baixa valorização profissional e salarial. “Existem setores onde esses fatores extrapolam a barreira do suportável. Por exemplo, em Salvador existe uma coordenação inserida dentro do Departamento de Policia Técnica, a CAT, onde os profissionais são subutilizados ao extremo. Não fazem a sua atividade fim que é a papiloscopia e são impedidos institucionalmente de executarem”. Pontua Durão. Ainda segundo o representante a situação é tão preocupante que de onze peritos a coordenação tem dois afastados por depressão. “Os gestores do Departamento de Policia Técnica deveriam ter uma responsabilidade maior com seus funcionários”. Conclui Durão.

Os sintomas da depressão são desânimo, falta de prazer nas coisas que no cotidiano traziam satisfação, uma tristeza intensa e continua, choro frequente, falta ou excesso de apetite e insônia, diminuição do interesse sexual. Estes sintomas terão que acontecer durante duas semanas para ser diagnosticada como uma depressão. Ao identificar os sintomas é fundamental  ter bastante sensibilidade,  paciência e carinho pois pessoas depressivas necessitam de atenção, um bom ouvinte e cuidadoso.

“No caso de suicidios entre policiais é necessário aumentar os investimentos na área de saúde do trabalhador. E o mindfulness é uma excelente alternativa para a saúde do trabalhador. O grupo de Mindfulness já está sendo implantado na Polícia Militar de São Paulo e na Guarda Civil Metropolitana da capital paulista pelo Mente Aberta da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o que está possibilitando uma melhor qualidade de vida para os que passaram pelo programa. O mesmo pode ser feito na Bahia. E, além disto, as pesquisas tem demonstrado que quem praticou mindfulness durante oito semanas, evita uma novo episódio depressivo para quem já teve”, disse Eli Samuel, psicólogo graduado pela UFBA e especialista em Mindfulness pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Terapeuta cognitivo comportamental pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP.

 

Fontes:

https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/03/160322_policiais_suicidios_fe_if

https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/perito-da-policia-que-matou-esposa-e-se-matou-na-ba-enviou-mensagem-de-whatsapp-contando-o-que-iria-fazer